Em 2026, o Personal Trainer português tem um perfil mais definido do que nunca. 343 profissionais em todo o país responderam a este estudo, de Lisboa ao Alentejo, de estúdios boutique a ginásios low cost, e o retrato que emerge é o de uma profissão em transição: com bases sólidas, mas com tensões visíveis entre o que é e o que quer ser.
O respondente típico é do sexo masculino (71.7%), trabalha a tempo inteiro (72.0%), por conta própria em recibos verdes (70.0%), e tem entre 6 e 10 anos de experiência (26.8%). O sector é maioritariamente composto por profissionais já estabelecidos, não por recém-formados, o que torna os dados de rendimento e desafios ainda mais relevantes: estas são as condições de trabalho de quem já superou os primeiros anos.
A distribuição geográfica reflecte o peso demográfico do país: Lisboa e Vale do Tejo (32.4%) e Norte (31.8%) concentram dois terços da amostra. O Centro representa 23.0%. Os dados são representativos dos mercados urbanos, mas os resultados de Alentejo (n=10) e Ilhas (n=11) devem ser lidos com cautela.
Em termos académicos, 38.8% tem licenciatura, 37.0% o Curso TEF e 23.6% mestrado. O sector está dividido quase a meio entre formação académica superior e formação técnica, uma divisão que tem implicações diretas no rendimento.
O Personal Trainer português de 2026 não é um iniciante. É um profissional experiente, com formação, a trabalhar por conta própria, num regime fiscal que combina flexibilidade com precariedade. O desafio não é a competência técnica, é a sustentabilidade do modelo de negócio.
O rendimento é o dado mais aguardado de qualquer estudo sobre a profissão. Em 2026, pela primeira vez com uma amostra representativa de 343 Personal Trainers em todo o país, temos números concretos, e revelam tanto o que foi conquistado como o que ainda falta.
O rendimento bruto mediano é de €1.750/mês (média estimada: €1.964/mês). Metade dos Personal Trainers inquiridos ganha menos de €1.750 bruto, e com a maioria a trabalhar em recibos verdes sem benefícios sociais, o rendimento líquido efectivo é significativamente inferior.
A distribuição é claramente assimétrica: 20.4% ganha menos de €1.000/mês, 43.7% situa-se entre €1.000 e €1.999, e 35.9% ultrapassa os €2.000. Existe uma classe de Personal Trainers bem estabelecida economicamente, mas a maioria ainda está no escalão médio ou baixo.
A variável que mais explica o rendimento é a experiência profissional. Personal Trainers com menos de 1 ano têm rendimento médio estimado de €897/mês. Com mais de 10 anos, esse valor sobe para €2.549, uma diferença de 2,8× (Spearman ρ=.446, p<.001). A carreira de Personal Trainer tem uma trajectória de crescimento real e sustentada, mas exige persistência ao longo de uma década.
O preço por sessão é o segundo maior preditor de rendimento (Spearman ρ=.355, p<.001). A mediana nacional é de €25/sessão, com 41.3% no escalão €20–€29. Dois em cada cinco Personal Trainers cobra menos de €30 por sessão, e 32.9% cita "aumentar preços" como um dos seus maiores desafios actuais.
Lisboa destaca-se: a mediana de preço por sessão na capital é de €35, vs. €25 no Norte, Centro e Algarve (Kruskal-Wallis p<.001). O mercado de Lisboa sustenta preços 40% superiores à mediana nacional, e Personal Trainers fora de Lisboa podem estar sistematicamente a subcobrar face ao valor que entregam.
| Anos de experiência | Rendimento médio est. | N |
|---|---|---|
| Menos de 1 ano | €897/mês | 31 |
| 1–2 anos | €1.492/mês | 48 |
| 3–5 anos | €1.671/mês | 85 |
| 6–10 anos | €2.287/mês | 92 |
| Mais de 10 anos | €2.549/mês | 87 |
Spearman ρ=.446, p<.001. Rendimentos baseados em pontos médios de faixas declaradas.
Para além do treino individual, 43.1% dos Personal Trainers (n=148) ministra aulas de grupo, e 35.9% (n=123) realiza rota em sala de exercício. São dois serviços com lógicas de remuneração muito distintas: o primeiro tem valor de mercado razoável, o segundo é sistematicamente subpago.
Mediana: €17/aula · Média estimada: €15,80/aula
Mediana: €6/hora · Média estimada: €6,77/hora · 70% recebe €5–€7/h
A rota em sala é, de longe, o serviço pior pago da profissão. 69.9% dos Personal Trainers que fazem rota recebem entre €5 e €7 por hora, o valor mais baixo de todas as modalidades de trabalho analisadas. A aula de grupo oferece melhores condições: a maioria (37.8%) recebe entre €15 e €19 por aula, e 8.1% já cobra €25 ou mais. São dois serviços com dinâmicas de mercado completamente diferentes, e que devem ser tratados como tal em qualquer negociação de condições de trabalho.
O rendimento do Personal Trainer português cresce com a experiência e com o preço por sessão. Quem cobra mais, ganha mais. Quem persiste, ganha mais. A questão não é se o crescimento é possível, é que a maioria dos Personal Trainers ainda não activou as alavancas que o aceleram.
70.0% dos Personal Trainers portugueses trabalha por conta própria em recibos verdes. É a estrutura que define o sector, e que carrega tanto vantagens como riscos que este estudo quantifica pela primeira vez.
O modelo de remuneração divide-se entre conta própria pura (34.7%), comissão (23.0%), renda (23.0%) e contratos (19.2%). Quase metade dos Personal Trainers partilha receita com o espaço onde trabalha, seja via percentagem de comissão, seja via pagamento de renda.
Os Personal Trainers com modelo de renda pagam em média entre €350 e €400/mês ao espaço de trabalho (mediana estimada, n=79). Para um Personal Trainer com rendimento de €1.750/mês, a renda representa entre 20% e 23% do rendimento bruto, antes de descontos fiscais e contribuições para a Segurança Social.
A modalidade de trabalho com remuneração mais baixa é a rota em sala: 69.9% dos Personal Trainers que fazem rota recebem entre €5 e €7 por hora (mediana €6/hora), vs. €25 de mediana por sessão de treino personalizado. A rota paga entre 3 e 5 vezes menos por hora do que uma sessão individual, um diferencial que deveria influenciar as escolhas sobre onde investir o tempo de trabalho.
O dado mais revelador sobre a economia real do sector: 64.6% dos Personal Trainers não declara a totalidade do rendimento ao fisco. Os números de rendimento deste estudo reflectem o que os Personal Trainers assumem ganhar, não necessariamente o que efectivamente recebem e declaram. A economia informal é estrutural no sector.
O modelo de trabalho do Personal Trainer português combina máxima flexibilidade com máxima exposição ao risco. Sem vínculos laborais, sem proteção social integrada, com parte do rendimento na economia informal, é um modelo que funciona quando corre bem e deixa pouca margem quando corre mal.
O rendimento do Personal Trainer português não é determinado apenas pela experiência ou pela formação. O modelo de remuneração e o tipo de espaço onde trabalha têm um impacto direto e mensurável na faturação — e os dados de 2026 revelam padrões que devem informar decisões de carreira.
Existem diferenças estatisticamente muito significativas de rendimento entre os modelos de remuneração (Kruskal-Wallis H=41.5, p<.0001). O modelo de comissão é, em média, o mais penalizante: mediana de €1.250/mês, com apenas 16.5% a atingir €2.000+. Em contraste, quem trabalha no modelo de renda — pagando um valor fixo ao espaço e ficando com a totalidade do que cobra aos clientes — tem mediana de €2.500/mês, com 53.2% acima de €2.000.
O gap entre comissão e renda é de €1.216/mês na média (r=.538, p<.0001 — efeito grande). Quem trabalha por comissão está a ceder uma fração significativa da receita ao ginásio sem retorno proporcional em rendimento. Quem paga renda tem custo fixo, mas conserva a integralidade do preço de sessão cobrado ao cliente.
| Modelo | N | Mediana | Média est. | ≥€2.000/mês |
|---|---|---|---|---|
| Renda | 79 | €2.500 | €2.553 | 53.2% |
| Conta própria (preço direto) | 119 | €1.750 | €2.141 | 42.9% |
| Contrato + Comissão | 36 | €1.750 | €2.045 | 33.3% |
| Contrato | 30 | €1.250 | €1.512 | 16.7% |
| Comissão | 79 | €1.250 | €1.337 | 16.5% |
Kruskal-Wallis H=41.5, p<.0001. Renda vs. Comissão: p<.0001, r=.538. Conta própria vs. Comissão: p=.0001, r=.330.
O tipo de espaço onde o Personal Trainer trabalha está igualmente associado ao rendimento (Kruskal-Wallis H=15.5, p=.004). O destaque inequívoco é o Estúdio/Boutique: mediana de €2.500/mês, média de €2.342, com 53% dos Personal Trainers acima de €2.000.
O resultado mais surpreendente é o espaço Premium: apesar da categoria sugerir clientes de maior poder de compra, a mediana de rendimento é de apenas €1.750/mês — semelhante ao Medium cost (p=.355, diferença não significativa). Uma explicação plausível: em espaços Premium, o modelo dominante pode ser comissão (cedendo parte da receita ao ginásio), enquanto nos estúdios boutique predomina a conta própria ou a renda, com maior autonomia de preço.
| Tipo de espaço | N | Mediana | Média est. | ≥€2.000/mês |
|---|---|---|---|---|
| Estúdio / Boutique | 100 | €2.500 | €2.342 | 53.0% |
| Premium | 33 | €1.750 | €1.950 | 30.3% |
| Medium cost | 101 | €1.750 | €1.764 | 26.7% |
| Independente | 52 | €1.250 | €1.932 | 30.8% |
| Low cost | 57 | €1.250 | €1.822 | 29.8% |
Kruskal-Wallis H=15.5, p=.004. Estúdio vs. Low cost: p=.007, r=.253. Estúdio vs. Medium cost: p=.0005, r=.279. Premium vs. Estúdio: p=.080 (ns).
O regime fiscal também está associado ao rendimento (Kruskal-Wallis H=23.2, p<.0001). Os 35 Personal Trainers com empresa própria têm média estimada de €3.200/mês, com 65.7% acima de €2.000 — muito superior a todos os outros regimes. Trabalhar por conta de outrem (contrato) é o regime com rendimento mais baixo (média €1.395, 8% acima de €2.000).
O rendimento do Personal Trainer é fortemente moldado por decisões estruturais que muitas vezes não são tratadas como decisões de negócio: o modelo de remuneração, o tipo de espaço e o regime fiscal. Trabalhar por comissão num ginásio low cost com contrato de trabalho é, em média, a combinação menos rentável. Trabalhar por conta própria num estúdio boutique com modelo de renda — ou ter empresa — é a combinação mais rentável. Os dados de 2026 mostram que estas escolhas têm um impacto tão grande no rendimento como os anos de experiência.
Este é o finding central do EliteReport 2026. A tensão entre onde os Personal Trainers investem e onde sentem as maiores dificuldades revela a lacuna estrutural que mais limita o crescimento do sector.
71.4% dos Personal Trainers foca a sua formação em treino. É a área favorita, a área dominante, a área onde o sector se sente mais competente. O treino é o produto, é a identidade profissional, é o que os Personal Trainers foram formados para fazer.
Mas os dados de desafios contam uma história diferente. Os 3 maiores problemas declarados são: crescer no online (47.8%), conseguir novos clientes (43.4%) e ter rendimentos consistentes (38.5%). Quase metade dos Personal Trainers portugueses sente dificuldade com as dimensões de negócio da profissão, e apenas 9.9% investe em formação de negócio e 3.5% em vendas.
Esta assimetria tem um custo mensurável. Personal Trainers que investem mais de €2.000/ano em formação têm rendimento médio estimado de €3.716/mês, mais do dobro dos que investem menos de €250 (€1.527/mês, Kruskal-Wallis p<.001, Spearman ρ=.311). A formação compensa, mas apenas quando é suficientemente intensiva.
A barreira mais citada ao crescimento é "falta de tempo" (35.9%), seguida de "falta de conhecimento de marketing/vendas" (30.0%) e "falta de posicionamento/diferenciação" (26.8%). O Personal Trainer português sabe exatamente o que lhe falta, falta encontrar o tempo e os recursos para o desenvolver.
O Personal Trainer português é excelente no que foi treinado para fazer. O que ninguém o ensinou, captar clientes, posicionar-se no mercado, crescer online, é precisamente onde mais falha. Esta assimetria não é uma falha individual. É uma lacuna sistémica da formação no sector.
Em 2026, Portugal está a dar o salto digital no fitness, mas com velocidades muito diferentes entre quem já adoptou e quem ainda resiste. Os dados revelam um sector a meio de uma transição que vai definir os próximos anos da profissão.
Os Personal Trainers que usam software têm rendimento médio estimado €342/mês superior aos que não usam (€2.074 vs. €1.732, p=.008, r=.158). Existe uma associação estatisticamente significativa entre adopção de software e rendimento, embora a direcção de causalidade não seja determinada por este estudo.
Surpreendentemente, o software não está associado a maior preço por sessão (p=.088) nem a maior retenção de clientes (p=.928). O impacto do software parece manifestar-se mais na capacidade de gerir mais clientes ou diversificar fontes de rendimento do que diretamente na qualidade do serviço prestado.
A preocupação com a IA é baixíssima: apenas 7.9% demonstra alta preocupação (7–10/10) com a possibilidade de ser substituído pela tecnologia. A mediana de preocupação é de 2/10, com 39.7% a pontuar 0. O sector não percebe a IA como ameaça existencial, percebe-a como ferramenta. Esta é, possivelmente, a percepção correta para quem entende que o relacionamento humano é o coração do Personal Training.
51.9% auto-avalia o nível de adopção tecnológica como "médio". Apenas 24.0% se classifica como "alto" ou "muito alto". Há consciência da necessidade de evoluir, mas a maioria ainda está no meio do caminho.
A tecnologia está a entrar no sector fitness português, mas o salto ainda não foi dado. O diferencial de €342/mês entre utilizadores e não utilizadores de software sugere que quem adoptar ferramentas digitais nos próximos anos terá uma vantagem competitiva crescente.
Conseguir e manter clientes é o motor de qualquer negócio de Personal Training. Os dados de 2026 revelam um sector com retenção notavelmente forte, mas com sérias dificuldades na aquisição.
63.5% dos Personal Trainers reporta retenção média de clientes superior a 1 ano, e 40.2% tem clientes que ficam mais de 2 anos. Quem entra para treinar com um Personal Trainer tende a ficar, a qualidade do serviço converte-se em fidelidade de longa duração.
Mas a captação é o problema. 60.1% dos Personal Trainers consegue 0 a 1 clientes novos por mês. A maioria dos Personal Trainers depende da manutenção da carteira existente, não do crescimento. Quando um cliente sai, há dificuldade em substituí-lo.
Os Personal Trainers mais experientes e os que investem mais em formação têm retenção ligeiramente superior, mas a associação estatística entre formação e retenção não é robusta (p=.154). Reter clientes parece depender mais de factores relacionais e de consistência do que de certificações adicionais.
O Personal Trainer português sabe fazer o trabalho, os clientes ficam. O problema é que chegam pouco a pouco, maioritariamente por recomendação. Num mercado onde a visibilidade digital está a tornar-se requisito de entrada, os Personal Trainers com capacidade de aquisição activa têm uma vantagem crescente.
O treino online é a fronteira de crescimento que mais fascina e mais assusta os Personal Trainers portugueses. Em 2026, temos os primeiros dados robustos sobre como está a correr, e o retrato é mais matizado do que as narrativas de sucesso que circulam nas redes sociais.
O preço médio do acompanhamento online é de €62/mês por cliente (mediana estimada, N=174). Um Personal Trainer online com 20 clientes activos gera €1.240/mês apenas no canal online, um número que começa a ser economicamente relevante.
A distribuição de rendimento dos Personal Trainers 100% online é reveladora: 31.8% atingem €3.000+/mês, mas 18.1% ficam abaixo de €1.000. O modelo 100% online parece funcionar muito bem ou não funcionar de todo (nota: N=22, apenas indicativo). O online não é uma garantia de sucesso, é uma aposta que exige competências específicas de marketing e conversão que a maioria dos Personal Trainers ainda não desenvolveu.
Para quem tem online sem ser exclusivamente digital, os dados revelam que a maioria ainda está numa fase inicial de monetização. 43.7% reporta que menos de 10% do rendimento total vem do digital. Apenas 18.8% retira mais de metade do seu rendimento do online.
Base: n=174 (50.7% da amostra total com rendimento digital). Restantes 169 PTs: rendimento 100% presencial.
O padrão é claro: a maioria dos Personal Trainers que entrou no digital está ainda na fase de complemento, não de substituição. Para a grande maioria, o online representa menos de um quarto do rendimento total. Apenas 12.6% (n=22) atingiu o modelo 100% online, e outros 9.8% (n=17) têm o online como fonte maioritária (50%+). Para a maioria, o digital ainda é um complemento, não uma substituição do modelo presencial.
O online é real, mas não é simples. Para os que dominam as ferramentas de captação e conversão digital, abre um mercado sem limite geográfico e com escalabilidade que o presencial nunca poderá ter. Para os que não dominam, o investimento de tempo e energia pode não ter retorno proporcional.
Este estudo confirma algo que a intuição já sugeria, mas com dados que tornam a conclusão inegável: formação e rendimento estão associados. A questão é perceber exatamente como.
93.9% dos Personal Trainers faz pelo menos 1 formação por ano. O sector tem uma cultura de aprendizagem contínua, o que distingue os Personal Trainers portugueses de muitas outras profissões liberais.
Mas o investimento varia enormemente. 25.5% investe menos de €250/ano em formação. 3.7% investe mais de €2.000. Existe um grupo pequeno de Personal Trainers que faz da formação um compromisso sério e estratégico, e os dados mostram que essa aposta compensa.
| Investimento anual em formação | Rendimento médio est. | Preço mediano/sessão |
|---|---|---|
| Menos de €250 | €1.527/mês | €25 |
| €251–€500 | €1.755/mês | €25 |
| €501–€1.000 | €2.224/mês | €35 |
| €1.001–€2.000 | €2.567/mês | €35 |
| Mais de €2.000 | €3.716/mês | €35+ |
Spearman ρ=.311, p<.001 (rendimento); ρ=.234, p<.001 (preço/sessão). Formação vs. retenção: p=.154 (não significativo).
A formação está também associada ao preço por sessão: Personal Trainers que investem €501+ por ano têm mediana de preço de €35 vs. €25 para os que investem menos (Spearman ρ=.234, p<.001). A formação parece reforçar a confiança e a capacidade de cobrar mais, não apenas a competência técnica.
Paradoxalmente, a formação não está associada à retenção de clientes (p=.154). Reter clientes parece depender de factores diferentes, relacionamento, consistência, adaptação às necessidades individuais, mais do que de certificações adicionais.
Investir em formação é o preditor de rendimento mais controlável à disposição de um Personal Trainer. A experiência acumula-se com o tempo, não há atalho. Mas a formação pode ser acelerada por decisão própria. Os dados de 2026 mostram que quem decide investir significativamente sai claramente à frente.
Os dados do EliteReport 2026 revelam desigualdades que existiam mas que nunca tinham sido quantificadas com esta precisão. Género e nível académico estão associados ao rendimento de forma estatisticamente significativa, mas o segundo exige uma leitura cuidadosa.
Género e rendimento: Personal Trainers masculinos têm rendimento médio estimado €393/mês superior ao das Personal Trainers femininas (€2.075 vs. €1.682, Mann-Whitney p=.024, r=.154). Esta diferença não é explicada pelo preço por sessão (que não difere significativamente por género, p=.087), o que sugere que as Personal Trainers femininas podem ter menor volume de clientes, menos diversificação de fontes de rendimento, ou maior concentração em regiões com rendimento mais baixo.
Nível académico e rendimento — com ressalva: Personal Trainers com licenciatura ou grau superior têm rendimento médio estimado €369/mês superior a Personal Trainers com Curso TEF (€2.100 vs. €1.731, p=.001, r=.211). A associação é estatisticamente robusta, mas requer leitura cautelosa: os licenciados têm sistematicamente mais experiência acumulada (mediana 6–10 anos vs. 3–5 anos nos TEF, p<.0001, r=.487). Uma vez que a experiência é o preditor mais forte de rendimento neste estudo (ρ=.446), parte substancial deste gap pode reflectir diferenças de tempo de carreira, não o grau académico em si. Os dados disponíveis não permitem isolar os dois efeitos.
| Segmento | Rendimento médio est. | Diferença | Significância |
|---|---|---|---|
| Masculino | €2.075/mês | +€393 | p=.024, r=.154 |
| Feminino | €1.682/mês | referência | — |
| Licenciatura / superior | €2.100/mês | +€369 | p=.001, r=.211 |
| Curso TEF | €1.731/mês | referência | — |
| Lisboa | €2.265/mês (mediana) | +€643 | Kruskal-Wallis p=.029 |
| Centro | €1.622/mês (mediana) | referência | — |
As desigualdades de rendimento no sector têm padrões identificáveis. O gap de género é o mais direto. O gap académico existe e é estatisticamente robusto, mas deve ser lido com cautela: como os licenciados tendem a ter mais anos de carreira, e a experiência é o preditor dominante de rendimento, o grau académico pode ser um sinal de mercado mais do que a causa direta do rendimento. Estudos futuros com controlo de experiência permitiriam clarificar este efeito.
Para além dos números de rendimento, o EliteReport 2026 mede o que não se vê nas tabelas de preços, a satisfação, o equilíbrio e a intenção de continuar. O retrato que emerge é de uma profissão que as pessoas amam, mesmo com as suas imperfeições económicas.
A satisfação geral com a profissão é alta: mediana de 7/10, com 48.6% a pontuar 8–10 (Moda: 8). Apesar das dificuldades económicas, a maioria dos Personal Trainers gosta genuinamente do que faz, uma base sólida para qualquer esforço de melhoria das condições do sector.
A satisfação com o rendimento é ligeiramente inferior: média de 6.29 vs. 7.19 para satisfação geral. Os Personal Trainers reconhecem que poderiam e deveriam ganhar mais, mas que o rendimento não é a única razão pela qual estão na profissão.
O equilíbrio vida/profissional é o ponto mais fraco: mediana de 6/10, com 25.5% a avaliar 4 ou menos. 1 em cada 4 Personal Trainers tem um equilíbrio vida/trabalho deficitário, consequência direta de um modelo de trabalho que não separa horas de trabalho de horas de presença.
A IA não assusta: 39.7% dos Personal Trainers pontuam 0/10 em preocupação com a substituição pela IA, e a mediana é de 2/10. O sector percebe intuitivamente algo que os dados confirmam: o Personal Training vive de relacionamento humano, motivação, ajuste em tempo real, dimensões que a IA ainda não consegue replicar.
A profissão de Personal Trainer em Portugal tem algo raro: pessoas que gostam do que fazem. Este é o activo mais valioso do sector, e o ponto de partida para construir sobre ele condições económicas à altura do comprometimento humano que os Personal Trainers demonstram todos os dias.
Um dos dados mais marcantes do EliteReport 2026 não é sobre rendimento nem sobre preços, é sobre o que o sector quer para o seu futuro.
Os principais benefícios esperados incluem maior valorização da profissão, regulação do mercado e protecção dos profissionais. A motivação para a ordem não é corporativista, é uma resposta racional às condições actuais de desregulação que deixam os Personal Trainers expostos.
As preocupações principais são o aumento de custos (quotas e taxas), a burocracia e a falta de impacto real. A resistência não é ao conceito de ordem em si, é ao risco de criar uma estrutura burocrática cara que não muda efectivamente as condições no terreno.
A tensão central é clara: 64.6% não declara a totalidade dos rendimentos e 82.2% pede uma ordem profissional. Informalidade e desejo de regulação coexistem. O sector não recusa a formalização por opção ideológica, recusa por ausência de incentivo suficiente. Uma ordem que ofereça benefícios concretos e custos razoáveis pode ser o catalisador da formalização que o sector precisa.
O sector está pronto para a ordem profissional. A maioria quer-a, percebe porque é necessária, e tem preocupações legítimas sobre a sua execução. O trabalho não é convencer, é desenhar uma estrutura que mereça a confiança que o sector está disposto a dar.
O EliteReport 2026 é o estudo mais abrangente alguma vez realizado em Portugal sobre a profissão de Personal Trainer. Recolheu respostas de 343 profissionais em actividade, distribuídos por todas as regiões do país, de Lisboa ao Algarve, do Norte às Ilhas. O questionário foi aplicado online, entre o final de 2025 e início de 2026, e abrangeu 56 variáveis sobre perfil profissional, rendimento, modelo de negócio, adopção tecnológica, formação, satisfação e perspectivas de carreira.
A análise estatística incluiu testes de Mann-Whitney U e Kruskal-Wallis para comparações entre grupos, e correlações de Spearman para associações entre variáveis ordinais. Os resultados são apresentados com os respectivos valores de p e tamanhos do efeito (coeficiente de correlação r ou Spearman ρ). A amostra é de conveniência; as conclusões descrevem os respondentes e não devem ser extrapoladas como representativas de toda a população de Personal Trainers em Portugal. Os valores de rendimento são estimativas baseadas nos pontos médios das faixas declaradas.
Análise realizada com Python/scipy.stats. Nível de significância adoptado: α=.05. Tamanhos de efeito: r<.1 negligenciável; .1–.3 pequeno; .3–.5 médio; >.5 grande.
O EliteReport 2026 foi produzido pela EliteTrainer, o software de gestão de Personal Trainers mais utilizado em Portugal, com o apoio da Exercise Matrix University. O estudo reflecte o compromisso de ambas as organizações com a profissionalização e o desenvolvimento do sector do Personal Training em Portugal.